Desde crianças, ouvimos sobre a peculiaridade da palavra saudade, do privilégio que temos por poder usá-la e da exclusividade da sua existência em nossa língua.
Saudade, para nós, sempre foi palavra que dá nome a uma coisa. Coisa que dá e passa; saudade é o amor que fica; saudade dói, dói, dói.
Em prosa, em poesia, em correntes, a saudade figura em muitas formas, cores e descrições e eu concluo: Quem quer que tenha criado essa palavra que dá nome a uma coisa, não sabia que essa coisa está além de qualquer palavra.
Saudade é o nome que a gente usa para quando o amor não pode ser executado; quando o carinho não encontra seu alvo (Entre outras coisas, claro). Saudade vem e vai como um lembrete do que falta em nosso sistema; do que nos desestabiliza.
A encaixamos, todo dia, na categoria das sensações fisiológicas: "Tô com fome" para quando falta comida; "tô com sede" para quando falta água; e "tô com saudade" para quando falta... (o quê, exatamente?)
Não se pode alcançar exatidão com a saudade. Saudade pode ser de quê ou de quem, de algo ou de alguém. Saudade desperta com um cheiro ou com a ausência de um cheiro. Saudade desperta com um sonho que faz você perceber o quanto necessita de algo (ou alguém); Saudade de amigos, da família, saudade daquela camisa que manchou, pode-se sentir saudade de qualquer coisa; até de uma surra.
Saudade é uma foto que tiramos do que é bom e veneramos, desejando que tudo seja daquele jeito pra sempre; ou, pelo menos, mais uma vez.
Tem saudade que tem cura e tem saudade que não tem. Saudade que a gente mata e saudade que mata a gente... "Tô morreeeendo de saudade". Tem saudade que a gente enterra para não morrer. Saudade é coisa que não tem como descrever.
Como pintar a saudade com uma cor alegre se a alegria só vem quando a gente mata ela?
Enfim, saudade dói e machuca... mas, quando a gente tem a chance de dar o troco nela, é, simplesmente, maravilhoso.
quinta-feira, 26 de maio de 2011
segunda-feira, 14 de março de 2011
Nascidos de que jeito?

"Eu sou belo do meu jeito, porque Deus não comete erros. Estou no caminho certo, baby. Eu nasci assim." (Lady Gaga, Born this way)
Concluindo sobre esta beleza de nascença cantada por Lady Gaga, depois deste carnaval em Salvador: Como está bela a comunidade das siglas enigmáticas!
Peitos, coxas, bundas, cabelos e tatuagens perfeitos. Definitivamente, Deus não comete erros. Das "barbies" às "pão com ovo", todas aprenderam a lição da Lady Gaga ao editar suas imagens através de comportamentos, frases e roupas. Uma direção e seleção digna de Steven Klein.
Entretanto, quanto mais perto e mais íntimo do L, do G, do B ou do T, mais percebe-se o quanto o "carão" sustentado na boate e/ou o peito estufado por trás do abadá do crocodilo são falsos.
Em que transformou-se o movimvento libertador da sigla? Uma réplica piorada do modelo preconceituoso, hipócrita e repressor de sociedade?
De repente, a comunidade gay parece ter proclamado uma guerra interna da qual a arma mais poderosa é o status. E para quem não sabe, status é 'comprar aquilo que você não precisa, com o dinheiro que você não tem, para exibir para gente que você não gosta, aquilo que você não é'.
E, nisso, resume-se a experiência de libertação da comunidade gay de salvador. Uma cidade, como disse meu amigo Paulo Torres, grande por fora e pequena por dentro. Imagino que até Lady Gaga ficaria desapontada com a atitude arrogante, hipócrita, preconceituosa e, principalmente, excludente dos gays que estouram seus cartões de crédito, cheques especiais e passam o ano inteiro pagando para , por exemplo, peregrinar atrás de um carro de som, com sua camiseta salvadora, vugo camiseta de bloco, simulando sorrisos amarelos em fotos que fazem, exclusivamente, para postar em suas redes sociais.
É visível o esforço exaustivo que a grande maioria faz para alcançar cada um dos indicadores sociais que elas mesmas criaram, desvirtuando assim, essa comunidade que, um dia, raiou pela liberdade, respeito e igualdade.
Onde está o respeito pela própria identidade destas pessoas que amam boa música e amam a beleza do ser e, deveriam, PRATICAR o ser; quando estão sempre recostados nas paredes das baladas com suas roupas coloridas, com os dedos dos pés retraídos dentro do sapato e movimentos calculados com precisão cirúrgica no pavor de parecerem ser o que realmente são?
Onde está a coragem em prol da própria identidade destas pessoas quando dançam como nerds, escondendo a sapiência quase profissional de dança e precisam estar inundadas de álcool para renderem-se ao soar das 3hs da manhã e, finalmente, começar a dançar, conversar e beijar, mas, apenas com aqueles que atendem ao critério quase inatingível que acovardaram-se a exercer?
A conclamação pela união, respeito, igualdade e, principalmente, liberdade dos ícones gays parece não ter ultrapassado, sequer, a barreira da língua, quanto mais, as barreiras, ou melhor, as barragens que limitam as mentes futilizadas e abiloladas, cheias de ideias que contradizem com o que 'curtem'.
Precisam, mais do que nunca, realmente compreender seus ídolos que já estão roucos e irritados de gritar: "express yourself", "I will survive", "It don't matter if you're black or white".
Precisam fazer menos carão e mais carinho. Precisam ser belos de seu jeito... do jeito que nasceram.
sexta-feira, 11 de março de 2011
Presente pra você

O passado é sempre superestimado. Nas artes plásticas, temos as antiguidades; no cinema, temos os clássicos; na música, temos os famigerados "retrô", revivals e as homenagens que resgatam a boa música de décadas passadas.
Na vida, não muito diferentemente, temos os "bons tempos que não voltam jamais".
Afinal, temos ou não o hábito de fantasiar sobre um passado em que as sensações e acontecimentos eram sempre fabulosos? E, se sim, estamos deixando de construir um futuro brilhante na busca incansável de reproduzir o passado?
Acredito que quando praticamos uma lembrança, remasterizamos uma experiência, analisamos de forma diferente o que era presente, percebemos que sentimos saudade do que foi vivido, apesar de que à epoca, parecia-nos banalidade. Pode-se lembrar com saudade até de uma surra, se você for capaz de remontar os sentidos de tal momento, o contexto e o motivo.
Mas, nada agrega mais valor ao passado do que a sua intangibilidade. O que é inalcançável é irresistível e, automaticamente, considerado valioso. Como os prótons e íons, ou como qualquer raridade. O que eu não posso ter, é o que passo a desejar ainda e cada vez mais. Penso que é esse movimento que aplicamos ao nosso passado.
Ainda obcecados pela intangibilidade, transitamos entre o saudosismo e o futurismo profético. Esquecemos que ao invés de uma dupla escorregadia e imprevisível, há, na verdade, uma tríade que concentra sua realidade no meio, neste momento. Há o passado, o presente e futuro. Temos presente e, possívelmente, teremos um futuro. Temos o passado? Ou temos apenas passado?
Temos passado pelo presente desapercebidos do risco que se corre de dizer no futuro: "Eu era feliz e não sabia." Mas, talvez, estamos desconsiderando que o presente influencia o futuro, enquanto que o passado continua em seu pedestal abstrato. O passado de nossas vidas pode e deve ser visto e contemplado, mas, não devemos nos perder em uma contemplação imobilizadora.
O passado é imutável, o presente e o futuro são insólitos. Essa segurança é fascinante e desperta uma ânsia antropológica por avaliar detalhadamente os comportamentos e vermos quem costumávamos ser e com quem costumávamos ser; onde estávamos e onde estamos.
Sem dúvida, o passado tem seu valor. Mas, ele é como uma deusa indiana excêntrica e possessiva que enlaça e envolve-nos, se permitirmos, imobilizando seu súdito, em seu próprio desejo de reviver ou de fazer continuar o que já está passado. O que está no passado.
Minha mãe sempre diz que quem vive de passado é museu. Clichê dos bons. Mas, sabe que faz sentido? Os museus, pelo menos, tem algum lucro vindo do passado. As crianças tem medo dos museus; acho que é porque elas não tem ainda um passado e, para elas, apenas importa viver o presente; divertir-se. O passado tem para uma criança um componente de uso imediato, ou seja, uma criança não pisa num espinho duas vezes. Uma criança não perde a diversão, porém.
Eu também tenho tido medo do passado, e não terei lucro dele, além da aplicação imediata para não pisar nos espinhos novamente. Vou ser feliz, sabendo.
sábado, 12 de fevereiro de 2011
Gente antiga vs. Gente nova
A vida tem de coisas revoltantes uma quantidade enorme. O tempo passou nesse mundão e as pessoas foram informatizando-se, modernizando-se, educando-se ( porque não se pode negar que os 3% de pessoas com nível superior de ensino aumentou nos últimos anos). E, enfim, está aí a sociedade brasileira sempre lutando para se parecer com uma sociedade que ela não tem condições de ser, com o dinheiro que ela não tem. Definição perfeita de: Status.
Eis que, nos dias de hoje, as pessoas compram carros, casas, roupas e tudo que vêem pela frente com o dinheiro que não tem, para parecer algo que elas não são. (Somos mais bonitos hoje, porém.)
Aliás, na batalha pelo status e pela beleza, teceu-se uma linha tênue entre a beleza e a aberração. Mulheres transgêneras, mutantes, mulheres-fruta. Bundas, peitos, coxas numa sequência impressionante.
Aparelhos ortodônticos aos 30, alisantes de cabelo usados à exaustão. (Eu juro que um dia ainda vou ter uma intoxicação por guanidina na boate. E quando elas, ou eles suam, é uma catástrofe dos sentidos.
Em contrapartida, tem daqueles que exageram na naturalidade e no regionalismo e se fantasiam de Tropicália. Tem a tribo das bocas deformadas, lipos mal sucedidas. Um verdadeiro inferno!
O comportamento que apresenta mais técnica e visão profissional são as fotos PARA a rede social. Os lugares são lindos, sempre arrumadinhos, os sorrisos sempre perfeitos e as poses de bailarina russa.
E quanto mais hollywoodianos ficamos, mais vivemos a história de Dorian Gray numa releitura fútil e superficial. Guardado num quarto escuro e empoeirado, reside o retrato de quem somos.
Dizem que os frutos do espírito santo não existem mais, que os valores foram invertidos. Dizem que os participantes do BBB são os novos apóstolos do grande pastor que é o mundão.
Eu realmente não sei. Afinal, não há santo sem um passado. E essa galera antiga já tinha seus podres. Mas, pensando por um pouco na fantasia saudosista dessas pessoas.
Seria muito legal ter um pouco destas paradas antigas hoje em dia.
Seria ótimo se encontrássemos e convivêssemos com pessoas pontuais, educadas, inteligentes o tempo inteiro. Seria ótimo que as pessoas realmente não tentassem assumir um personagem feito de ouro por fora e de esterco por dentro.
E de tudo, o mais legal seria se as pessoas honrassem a sua palavra. Mas, não dessa forma simplória que me expressei. Falo de "ser uma pessoa de palavra", melhor, "ser um homem de palavra" porque para homem é mais difícil mesmo, né?. Seria fantástico ouvir as coisas mais lindas que as pessoas dizem, sempre inspiradas por uma novela ou filme sensacionalista, e poder acreditar.
Seria ótimo que as pessoas chorassem só quando fosse verdade e te prometessem apenas as coisas que elas tem condições de cumprir. Porque tal qual na vida financeira; as pessoas parecem, na visão antiga, terem-se tornado completas picaretas na vida pessoal.
E temos, a profissão secreta das pessoas: Atuação.
Mas, isso é só conversa de gente antiga!
Eis que, nos dias de hoje, as pessoas compram carros, casas, roupas e tudo que vêem pela frente com o dinheiro que não tem, para parecer algo que elas não são. (Somos mais bonitos hoje, porém.)
Aliás, na batalha pelo status e pela beleza, teceu-se uma linha tênue entre a beleza e a aberração. Mulheres transgêneras, mutantes, mulheres-fruta. Bundas, peitos, coxas numa sequência impressionante.
Aparelhos ortodônticos aos 30, alisantes de cabelo usados à exaustão. (Eu juro que um dia ainda vou ter uma intoxicação por guanidina na boate. E quando elas, ou eles suam, é uma catástrofe dos sentidos.
Em contrapartida, tem daqueles que exageram na naturalidade e no regionalismo e se fantasiam de Tropicália. Tem a tribo das bocas deformadas, lipos mal sucedidas. Um verdadeiro inferno!
O comportamento que apresenta mais técnica e visão profissional são as fotos PARA a rede social. Os lugares são lindos, sempre arrumadinhos, os sorrisos sempre perfeitos e as poses de bailarina russa.
E quanto mais hollywoodianos ficamos, mais vivemos a história de Dorian Gray numa releitura fútil e superficial. Guardado num quarto escuro e empoeirado, reside o retrato de quem somos.
Dizem que os frutos do espírito santo não existem mais, que os valores foram invertidos. Dizem que os participantes do BBB são os novos apóstolos do grande pastor que é o mundão.
Eu realmente não sei. Afinal, não há santo sem um passado. E essa galera antiga já tinha seus podres. Mas, pensando por um pouco na fantasia saudosista dessas pessoas.
Seria muito legal ter um pouco destas paradas antigas hoje em dia.
Seria ótimo se encontrássemos e convivêssemos com pessoas pontuais, educadas, inteligentes o tempo inteiro. Seria ótimo que as pessoas realmente não tentassem assumir um personagem feito de ouro por fora e de esterco por dentro.
E de tudo, o mais legal seria se as pessoas honrassem a sua palavra. Mas, não dessa forma simplória que me expressei. Falo de "ser uma pessoa de palavra", melhor, "ser um homem de palavra" porque para homem é mais difícil mesmo, né?. Seria fantástico ouvir as coisas mais lindas que as pessoas dizem, sempre inspiradas por uma novela ou filme sensacionalista, e poder acreditar.
Seria ótimo que as pessoas chorassem só quando fosse verdade e te prometessem apenas as coisas que elas tem condições de cumprir. Porque tal qual na vida financeira; as pessoas parecem, na visão antiga, terem-se tornado completas picaretas na vida pessoal.
E temos, a profissão secreta das pessoas: Atuação.
Mas, isso é só conversa de gente antiga!
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
Declaração de amor
Eu soube que te amava a primeira vez que te vi chorar.
Foi como sentir que a coisa mais importante do mundo estivesse em colapso.
E, ao mesmo tempo, foi como assistir ao evento mais lindo da terra.
Eu não pude me conter e você viu nos meus olhos .
Descobriu que o que eu sentia por você era grande demais.
E essa foi a maior das declarações de amor.
Foi como sentir que a coisa mais importante do mundo estivesse em colapso.
E, ao mesmo tempo, foi como assistir ao evento mais lindo da terra.
Eu não pude me conter e você viu nos meus olhos .
Descobriu que o que eu sentia por você era grande demais.
E essa foi a maior das declarações de amor.
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
Disque-Noção

Se tivesse que abrir um negócio em Salvador, seria um Disque-Noção.
Isso, obviamente, considerando a demanda gigantesca que há na cidade.
Daniela chama essa terra de antropofágica. Eu chamo de "onifágica" porque, as pessoas querem tudo o tempo todo, todos os dias e não se incomodam em invadir o espaço alheio.
Para exemplificar: Eu sou um fumante. Não que eu me orgulhe disso, mas sou. E eu sinto que sustentar o vício alheio se tornou tão corriqueiro que eu já devo ter gasto o equivalente à minha cirurgia no pulmão com cigarros distribuídos aos pedintes. Será que as pessoas, realmente, não conseguem resistir ao apelo carnal em nome do bom senso e da educação doméstica básica?
Evidência deste fenômeno social em Salvador é o específico e incisivo uso da linguagem para mendigar.
É sempre "Me dê ... aí!"; nunca um "Poderia..." ou "Será que...".
"Me dê um cigarro aí!", e eu criando imagens torpes e violentas na minha mente insandecida.
Numa visão mais ampla e mais saudável, existem os incompreensíveis vizinhos e sua invasiva abordagem ao solicitar qualquer... qualquer coisa mesmo.
"Tem café aí?"
Eu, mentalmente drenando o sangue do miserável pelo rim, penso: Ela tem pacotes extras de café para me oferecer ou está preocupada com a condição da minha dispensa? Nenhuma das opções. O fato é que a suposta intimidade é tão grande que na mera existência do objeto desejado está subentendida a minha disposição em ceder e/ou doá-lo.
Nesse ritmo, lá se vão todos os itens da minha pobre dispensa, meus objetos de desejo, vícios, objetos pessoais, pedaços do meu pastel já minúsculo que sempre volta com perdigotos e rastros de saliva, goles de cerveja, bônus de celular, o último biscoito do pacote, gás do isqueiro ( Ah, isso custa dinheiro também) e qualquer outra coisa que os interesse.
A falta de noção do povo desta cidade é algo que o Pentágono, a NASA, a Petrobrás, os Volturi e a Ordem da Fênix deveriam estudar.
Gaste dinheiro com um lindo e confortável sofá em Salvador e perceba o quanto ele será desprezado em "favorecimento" à sua limpa e milimétricamente arrumada cama.
Entre no ônibus lotado, cansado, com vontade de conjurar um Avada e relaxe ao som das letras ginecológicas de um pagode vindo de um celular ao lado.
Entre numa loja com seu 13.º e receba o caloroso e educado olhar das vendedoras bem dispostas e sorridentes.
Compre um eletrodoméstico e receba-o em sua casa por simpáticos e cuidadosos entregadores.
Peça informação aos adoráveis cobradores de ônibus.
Viver em Salvador é ouvir as palavras "cú", "buceta" e "pica" com a mesma frequência em que se ouve "Oi".
E não se assuste com a exagerada gentileza dos recém conhecidos. Ao aceitá-la, estará estabelecido um contrato vitalício de doação dos itens citados acima.
Está claro o motivo da frieza dos americanos e europeus. Eles tem medo dos brasileiros!
Mas, se você sofre com algum desses problemas, em breve um delivery de noção em Salvador. Peça 1kg.
domingo, 5 de setembro de 2010
Um dia de cão ( O COMEÇO)
Essa coisa muito próxima de um conto é tenebrosa. E eu não entendo porque alguns enxergariam alguma comicidade no que vou contar. Afinal, cada ser humano sabe o que é triunfal e o que é catastrófico em sua vida.
E se eu quiser chorar? E se o motivo do meu choro for algo que, para você ou você ou você, é futil e banal?
Eu sei bem o que você vai pensar em seu momento jesuíta: "Tem gente morrendo de fome na África!".
Eu sei, eu sei.
"Tem gente que está presa numa cadeira de rodas!". Eu sei, eu sei. Mas, que porcaria de música é essa que cantam em uníssono para mim? Pior do que ser fútil é se sentir feliz com a desgraça alheia.
Particularmente, eu não entendo como a miséria da África ou uma cadeira de rodas deveriam ser o mote da meu contentamento.
Já diria o sábio e renomado poeta: "Cada um no seu quadrado". Eu sofro pelos meus problemas, você sofre pelos seus e a amizade continua.
Eu não tive a graça salvadora de nascer de uma família rica, mas, ainda assim eu tive um dia a graça salvadora de possuir um autómovel. Sim, graça salvadora. Porque eu fui por alguns anos salvo de experiências torturantes como a que estou prestes a relatar.
Esta é a minha desgraça, a minha catástrofe: Não ter mais o meu meio individual ( enquanto, assim o quisesse) e salvaguardante de transporte. E, tal qual uma criança africana adoraria uma feijoada, eu, no direito e exercício do meu ser individual, adorava ter um carro.
Uma pessoa que tem insônia precisa de um carro. Explico: Há dois meses moro na ensolarada e arritmada Maceió-AL e é incrível como, não importa quanto um lugar seja modesto geograficamente (leia-se pequeno, quase um ovo) hoje em dia, há um trânsito infernal.
Por um acaso do destino ( leia-se castigo divino antecipado pelas idéias divulgadas neste texto) moro num bairro afastado, o que não é tão relevante na minha condição, visto que quando uma pessoa usa o sistema público de transpostes, tudo é afastado e distante.
Carrego comigo a maldita herança genética da insônia e da ansiedade e portanto, sou melhor em tudo à noite. Mas, há algo de especial e cósmico nas noites de domingo para mim. Algo que faz com que me sinta um rato de laboratório louco por atividade e cheio de energia que ganha uma rodinha giratória nova. Eu não durmo nas noites de domingo. E nas manhãs de segunda, eu preciso acordar às 5hs da manhã para pegar o instrumento móvel e metálico de tortura chinesa que chamamos ônibus às 6hs da manhã. E isso, com o intuito de chegar ao trabalho às 7hs30min.
Nesta primeira segunda-feira de minha nova estabelecida rotina, como de costume, não havia dormido. De maneira que às 6hs em ponto estava perfeitamente limpo, vestido, estiloso e cheiroso no Instituto de alistamento sadomasoquista voluntário que chamamos de ponto de ônibus.
A primeira vista, percebi que o instrumento móvel de tortura se aproximava com uma incomun lentidão e um aparente esforço gravitacional. Com a diminuição dos metros, percebi que o esforço tinha a ver com o peso. Eu não faço idéia de quantas assentos aquele monstro enferrujado tem, muito menos imagino o número lícito de mártires que ele pode transportar de pé, no seu ato cruel.
Mas, imagino que esse, em particular, trazia entre 75 e 90 encarnados com uma dívida cármica equivalente a de Barrabás.
Esperei paciente e resignadamente no fim do amontoado que se degladiava para iniciar o arrebatamento macabro. 15 minutos depois, entrei... 30 minutos depois, passei pela catraca. ( Sim, porque além de tudo, você ainda é obrigado a pagar).
Interessante que depois de embarcado, a aparente dificuldade de locomoção e o peso pareciam desaparecer. O monstro corria desordenadamente sem qualquer suavização de atrito como um elefante correndo assustado na savana, enquanto eu, tal qual um paciente com o mal de parkinson, tremulamente estendia meu braço esquerdo para a barra de apoio acima.
Uma vez realizada a tarefa de apoiar-me na barra com meu braço mais fraco, a tarefa mais difícil e cruel era a de permanecer como uma estátua por 1 hora e ao mesmo tempo, ser uma estátua conveniente que dá passagem aos transeuntes e que assume feições de simpatia mesmo diante das mais desconfortáveis encoxadas de completos desconhecidos, nem sempre tão simpáticos.
Num momento de fraqueza, pensei em alternar o peso e a pressão com o meu braço direito. Foi quando percebi que como num num mar infernal, abaixo e rente ao meu cotovelo havia seios de várias faces, ossos nasais, bochechas e que qualquer tentativa de movimento seria o mesmo que uma tentativa de lesão corporal grave.
Permaneci com o meu braço esquerdo erguido, embora já não mais o sentisse. Próxima parada, conformistas alegres entraram. Não aparentavam qualquer cansaço e, pelo contrário, aparentavam uma genialidade e maestria em seus movimentos quase que cirúrgicos ao perpassarem pelos outros miseráveis e chegar aos seus lugares que, mesmo que as fizesse ficar de pé, pareciam confortabilíssimos.
De repente, como se o próprio Senhor das trevas quisesse brincar com meus sentimentos e me torturar ainda mais, desencadeou-se uma série de eventos sepulcrais e horríveis.
As recém-chegadas ao vale da morte, iniciavam uma espécie de confraternização satânica. Conheciam-se! Conversavam com seus sotaques de quem fora criado na convicência de 4 primatas sem contato social e nenhuma TV ou rádio, trocavam confidências em público, esperavam em comunhão a chegada do bebê de uma delas; torturavam a minha visão com o comércio clandestino do que chamavam estranhamente de "as confecção".
E num requinte de cruendade do Senhor daquele lugar, a cada palavra pronunciada, emitiam sons estridentes e agudos, com níveis de decibéis imorais muito parecidos com risos bruxísticos.
A essa altura, o óleo corporal pós-banho que usava havia-se fundido com o suor e a poeira e tornado-se uma mistura cremosa e espessa que escorria por minhas costas.
Foi quando, num monento cataclísmico, os piores acessórios que os agentes daquele de quem não falamos o nome carregavam começaram a ser usados. Celulares com qualidade visual e sonora incompreensíveis por estarem em suas posses.
Começou o bizarro concerto de reggae, forró e o som da banda montada pelos próprios cavaleiros do apoCALIPSE, daí o trocadilho com o nome: Calypso.
"Acelerou, acelerou, acelerou". E quando já havia espaço suficiente para movimento corporal, eis que em uma curva, meu corpo foi usado como uma marionete pelo CEO do inferno e eu fui momentaneamente possuído pelo espírito de Besouro e, sem controle do meu próprio corpo, virei como num golpe de rasteira de uma tribo africana e golpeei a panturrilha de um ser estranho, aparentemente feminino e ouvi, naquele momento da minha vida, coisas que eu sequer imaginava que existiam, com uma articulação que apenas um cavalo ofegante conseguiria reproduzir.
O volume em que disferia seu desabafo era tanto que meus pedidos de desculpas pareciam o sussuro da fada sininho.
Um ou dois... ou mil quarteirões depois, desci do instrumento mais cruel e macabro já inventado para torturar os homo sapiens e tive a sensação recompensadora de ar entrando no meu corpo.
Mas, eu tinha apenas chegado ao meu destino e o dia, tinha apenas começado.
E se eu quiser chorar? E se o motivo do meu choro for algo que, para você ou você ou você, é futil e banal?
Eu sei bem o que você vai pensar em seu momento jesuíta: "Tem gente morrendo de fome na África!".
Eu sei, eu sei.
"Tem gente que está presa numa cadeira de rodas!". Eu sei, eu sei. Mas, que porcaria de música é essa que cantam em uníssono para mim? Pior do que ser fútil é se sentir feliz com a desgraça alheia.
Particularmente, eu não entendo como a miséria da África ou uma cadeira de rodas deveriam ser o mote da meu contentamento.
Já diria o sábio e renomado poeta: "Cada um no seu quadrado". Eu sofro pelos meus problemas, você sofre pelos seus e a amizade continua.
Eu não tive a graça salvadora de nascer de uma família rica, mas, ainda assim eu tive um dia a graça salvadora de possuir um autómovel. Sim, graça salvadora. Porque eu fui por alguns anos salvo de experiências torturantes como a que estou prestes a relatar.
Esta é a minha desgraça, a minha catástrofe: Não ter mais o meu meio individual ( enquanto, assim o quisesse) e salvaguardante de transporte. E, tal qual uma criança africana adoraria uma feijoada, eu, no direito e exercício do meu ser individual, adorava ter um carro.
Uma pessoa que tem insônia precisa de um carro. Explico: Há dois meses moro na ensolarada e arritmada Maceió-AL e é incrível como, não importa quanto um lugar seja modesto geograficamente (leia-se pequeno, quase um ovo) hoje em dia, há um trânsito infernal.
Por um acaso do destino ( leia-se castigo divino antecipado pelas idéias divulgadas neste texto) moro num bairro afastado, o que não é tão relevante na minha condição, visto que quando uma pessoa usa o sistema público de transpostes, tudo é afastado e distante.
Carrego comigo a maldita herança genética da insônia e da ansiedade e portanto, sou melhor em tudo à noite. Mas, há algo de especial e cósmico nas noites de domingo para mim. Algo que faz com que me sinta um rato de laboratório louco por atividade e cheio de energia que ganha uma rodinha giratória nova. Eu não durmo nas noites de domingo. E nas manhãs de segunda, eu preciso acordar às 5hs da manhã para pegar o instrumento móvel e metálico de tortura chinesa que chamamos ônibus às 6hs da manhã. E isso, com o intuito de chegar ao trabalho às 7hs30min.
Nesta primeira segunda-feira de minha nova estabelecida rotina, como de costume, não havia dormido. De maneira que às 6hs em ponto estava perfeitamente limpo, vestido, estiloso e cheiroso no Instituto de alistamento sadomasoquista voluntário que chamamos de ponto de ônibus.
A primeira vista, percebi que o instrumento móvel de tortura se aproximava com uma incomun lentidão e um aparente esforço gravitacional. Com a diminuição dos metros, percebi que o esforço tinha a ver com o peso. Eu não faço idéia de quantas assentos aquele monstro enferrujado tem, muito menos imagino o número lícito de mártires que ele pode transportar de pé, no seu ato cruel.
Mas, imagino que esse, em particular, trazia entre 75 e 90 encarnados com uma dívida cármica equivalente a de Barrabás.
Esperei paciente e resignadamente no fim do amontoado que se degladiava para iniciar o arrebatamento macabro. 15 minutos depois, entrei... 30 minutos depois, passei pela catraca. ( Sim, porque além de tudo, você ainda é obrigado a pagar).
Interessante que depois de embarcado, a aparente dificuldade de locomoção e o peso pareciam desaparecer. O monstro corria desordenadamente sem qualquer suavização de atrito como um elefante correndo assustado na savana, enquanto eu, tal qual um paciente com o mal de parkinson, tremulamente estendia meu braço esquerdo para a barra de apoio acima.
Uma vez realizada a tarefa de apoiar-me na barra com meu braço mais fraco, a tarefa mais difícil e cruel era a de permanecer como uma estátua por 1 hora e ao mesmo tempo, ser uma estátua conveniente que dá passagem aos transeuntes e que assume feições de simpatia mesmo diante das mais desconfortáveis encoxadas de completos desconhecidos, nem sempre tão simpáticos.
Num momento de fraqueza, pensei em alternar o peso e a pressão com o meu braço direito. Foi quando percebi que como num num mar infernal, abaixo e rente ao meu cotovelo havia seios de várias faces, ossos nasais, bochechas e que qualquer tentativa de movimento seria o mesmo que uma tentativa de lesão corporal grave.
Permaneci com o meu braço esquerdo erguido, embora já não mais o sentisse. Próxima parada, conformistas alegres entraram. Não aparentavam qualquer cansaço e, pelo contrário, aparentavam uma genialidade e maestria em seus movimentos quase que cirúrgicos ao perpassarem pelos outros miseráveis e chegar aos seus lugares que, mesmo que as fizesse ficar de pé, pareciam confortabilíssimos.
De repente, como se o próprio Senhor das trevas quisesse brincar com meus sentimentos e me torturar ainda mais, desencadeou-se uma série de eventos sepulcrais e horríveis.
As recém-chegadas ao vale da morte, iniciavam uma espécie de confraternização satânica. Conheciam-se! Conversavam com seus sotaques de quem fora criado na convicência de 4 primatas sem contato social e nenhuma TV ou rádio, trocavam confidências em público, esperavam em comunhão a chegada do bebê de uma delas; torturavam a minha visão com o comércio clandestino do que chamavam estranhamente de "as confecção".
E num requinte de cruendade do Senhor daquele lugar, a cada palavra pronunciada, emitiam sons estridentes e agudos, com níveis de decibéis imorais muito parecidos com risos bruxísticos.
A essa altura, o óleo corporal pós-banho que usava havia-se fundido com o suor e a poeira e tornado-se uma mistura cremosa e espessa que escorria por minhas costas.
Foi quando, num monento cataclísmico, os piores acessórios que os agentes daquele de quem não falamos o nome carregavam começaram a ser usados. Celulares com qualidade visual e sonora incompreensíveis por estarem em suas posses.
Começou o bizarro concerto de reggae, forró e o som da banda montada pelos próprios cavaleiros do apoCALIPSE, daí o trocadilho com o nome: Calypso.
"Acelerou, acelerou, acelerou". E quando já havia espaço suficiente para movimento corporal, eis que em uma curva, meu corpo foi usado como uma marionete pelo CEO do inferno e eu fui momentaneamente possuído pelo espírito de Besouro e, sem controle do meu próprio corpo, virei como num golpe de rasteira de uma tribo africana e golpeei a panturrilha de um ser estranho, aparentemente feminino e ouvi, naquele momento da minha vida, coisas que eu sequer imaginava que existiam, com uma articulação que apenas um cavalo ofegante conseguiria reproduzir.
O volume em que disferia seu desabafo era tanto que meus pedidos de desculpas pareciam o sussuro da fada sininho.
Um ou dois... ou mil quarteirões depois, desci do instrumento mais cruel e macabro já inventado para torturar os homo sapiens e tive a sensação recompensadora de ar entrando no meu corpo.
Mas, eu tinha apenas chegado ao meu destino e o dia, tinha apenas começado.
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